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T  R  A  D  I  Ç  Õ  E  S

         &  L e n d a s                         

 

  As mais importantes tradições da freguesia fazem parte integrante da religiosidade popular. Sem falar naquelas que são comuns a outras localidades. Mencionam-se  aqui algumas tais como: a Procissão de Penitência e o toque festivo de sinos na quadra natalícia. Essa procissão conserva vestígios medievais e realiza-se no sábado da festa de Nossa Senhora das Dores. Saem da igreja os andores da Senhora das Dores e do Senhor dos Passos, acompanhados de muita gente, com a particularidade de na procissão figurarem os penitentes - pessoas cobertas geralmente com um lençol ou colcha branca, descalços, com coroas de hera e mesmo pedras na cabeça. Em frente do andor do Senhor dos Passos, caminhando de costas, vai um homem, também vestido de penitente, com dois cálices na mão, um de vinho e outro de água, elevando-os alternadamente na direcção do Senhor. A meio da procissão, chegada esta à Praça, é o momento do Sermão do Encontro, ficando os dois andores frente a frente. É costume pôr nos parapeitos das janelas candeias, lampiões ou velas.

 

 

 

 

 

 

 

O toque de sinos é especial na noite de Consoada, desde as “ave-marias’ até à Missa do Galo.

 

O ritmo é característico e os sinos são tocados por rapazes e homens, por ordem de chegada à torre da igreja.

Costume curioso era o das pulhas ou casamentos, em noite de Carnaval. Homens munidos de grandes funis colocavam-se em morros fronteiros da aldeia e dali anunciavam, uns para os outros, casamentos de pessoas que muito bem entendiam, intrometendo­-se frequentemente na vida privada. Ultimamente as pulhas são “deitadas” cada vez menos, tendo praticamente desaparecido. Existiam também como ainda hoje as máscaras com panos e rendas da qual as pessoas se mascaravam, conforme ilustram as imagens .

 

 

Entre as mais vivas tradições há que destacar ainda o cancioneiro, os jogos e as rezas populares de que se encontra recolha abundante nos livros Cancioneiro Popular Duriense, jogos Populares Portugueses de Jovens e Adultos e Jogos Populares Infantis. Como amostra, deixo aqui uma cantiga e uma reza que não estão recolhidas nesses livros, bem como referências a alguns jogos populares.

  

 

 

RESPONSO

Oh meu padre Santo António, que da glória sois o rei, sois filho da flor da palma, defensor da nossa lei. Deixa de pregar, António, vem aqui ter de repente, vem acudir a teu pai que morre inocentemente. Inocentemente não morre, que ele nisso não é culpado, por achar um homem morto no seu quintal enterrado. Levanta-te, ó homem morto, das partes do omnipotente. Vem dizer quem te matou, diante de toda a gente. Esse homem não me matou nem de mim teve sinais. Foram falsas testemunhas, de inimigos muito mais. O homem que me matou no acompanhamento vem, mas não quer o Rei da Glória que eu o diga a ninguém.

 

CANTIGA

Ó compadre chegadinho

1. Dizeis que viva o Castedo,

que tem a frente caiada.

Eu também digo que viva

a bela rapaziada.

 

Refrão

 

Ó compadre,

o compadre chegadinho,

faz favor,

faz favor de aqui chegar.

Ponha aqui,

ponha aqui o seu pezinho

e vamos os dois bailar.

 

2. Hei-de cantar, hei-de rir:

a tristeza não faz bem.

Eu nunca vi a tristeza

dar de comer a ninguém

 

3. Hei-de cantar e bailar

as vezes que eu quiser.

O cantar e o bailar

não me tira ser mulher.

 

4. O rosmaninho do monte tem um cheirinho que agrada. Se tu és o meu amor, eu serei a tua amada.

 

JOGOS POPULARES           

Alguns jogos populares: Fito, Gralhas, Ferro Bacelar, Burro, Rente, Cabra Cega, Lencinho Perdido, Bandeira, Tiroliro, Apanhada, Eixo, Panelas,

Par ou Pernão, Rapa, etc.

Eis a descrição dos jogos: Panelas, Tiroliro e Gralhas (infantis):

JOGO DAS PANELAS

1. Estica-se uma corda entre dois postes ou árvores e, a distâncias iguais, suspendem-se três panelas de barro preto (de Vilar de Nantes ou Bisalhães). Uma contém água; outra, terra, areia ou farinha; e a terceira, um galo.

2. Cada concorrente actua isolado. A ordem é sorteada.

3. O monitor do jogo estabelece a raia de onde os concorrentes devem partir, a qual fica distante das panelas, a uns 10/12 metros aproximada­mente.

4. O jogador dispõe de um pau, com tamanho semelhante ao de uma vassoura comprida. E com ele que vai tentar acertar numa das panelas. A tentativa só é conseguida, se um a panela for quebrada.

5. Apenas o monitor sabe o conteúdo de cada panela. A do galo é o do vencedor; a da terra (areia ou farinha, do segundo classificado; e a da água, do terceiro.

6. O concorrente tem uma venda nos olhos, colocada pelo monitor, e é volteado cinco vezes, antes de partir. Só pode desferir um golpe na sua actu­ação. Se tocar na corda com a vara, antes de desferir esse golpe, é desclas­sificado, o mesmo sucedendo, se tocar em outro objecto qualquer.

7. O tempo de participação de cada jogador é, em princípio, de um minuto.

8. O prémio do vencedor é o galo, além de outro que o regulamento da prova estipule.

 

      TIROLIRO

1. Como no Jogo das Escondidas, fica um jogador na malha e os outros vão-se esconder.

2. O tempo dado aos que se escondem é aquele que o da malha leva na contagem de um a vinte (contagem não apressada).

3. Se o da malha descobre um jogador, Beto, por exemplo, diz:

«Tiroliro no Beto», e vai tocar na malha. Esse jogador é então excluído e, no jogo seguinte, vai para a malha.

4. O jogo prossegue e, se um jogador dos que se esconderam consegue agarrar o da malha, antes de este aqui chegar, tem direito a ir à sua carrachita (às cavalitas), podendo imitar um cavaleiro e dizer:

-  Eh burrinho! Que rico burro eu tenho!

gralhas

1. Duas equipas, cada qual com o mesmo número de jogadores, alinhadas frente a frente e distanciadas uma da outra cerca de dez metros.

2. Cada jogador tem à sua frente um pino de pedra, havendo tantas malhas, também de pedra, como jogadores. Os pinos devem ser sensivelmente iguais e cada jogador escolhe a malha que entender.

3. Começa o jogo a equipa sorteada, procurando cada jogador derrubar um pino qualquer da equipa adversária.

4. Apenas uma equipa derrube todos os pinos da outra, começa a recuar o mais depressa que lhe for possível, iniciando os jogadores opostos a perseguição.

5. Cada jogador vitorioso é levado à carrachita (cavalitas) pelo adversário correspondente, a partir do ponto onde foi apanhado.

 

Cantiga

Adeus, adeus, ó Castedo

São numerosas as quadras populares que começam com este verso. Deixamos aqui a recordação de algumas, começando por um romance, muito conhecido no século passado, em que se conta a história de um rapaz acusado de ter assassinado o pai com bolos de bacalhau envenenados e, por esse crime, condenado ao degredo. Contudo, o envenenamento fora obra da criada.

 

Adeus, adeus, ó Castedo, cada casa tem seu baixo. Vinte e cinco testemunhas contra mim juraram falso.

Adeus, jurados de Murça, testemunhas do Castedo. Agora vou degredado, vou pagar o que não devo.

Adeus, adeus, ó Castedo

No meio tem um calhau.

Dizeis que eu matei meu pai

com bolos de bacalhau.

 

Outras quadras:

 

Adeus, adeus, ó Castedo.

Com que fazeis a vindima?

Com talhadas de botelha

e rabinhos de sardinha.

 

Adeus, adeus, ó Castedo, mal de ti nunca direi:

foi a terra onde nasci, não sei onde acabarei.

Adeus, adeus, ó Castedo, Quem te correra aos tiros, c’uma pistola de prata cargadinha de suspiros.

 

Adeus, fidalgos do Douro, já não comeides vitela:

deu-vos moléstia nas vinhas

chada filoxera *.

*Filoxera - de Phylloxera vitifolia, insecto que devastou os vinhedos durienses e de outras regiões vinícolas europeias e norte-africanas, nas décadas de 60 e 70 do século passado.

 

Lenda

MOURA ENCANTADA

 

Conta-se que aqui vivia uma moura encantada numa fraga onde existe uma mossa atribuída à ferradura de um cavalo. Maria, a linda moura, foi raptada em manhã de S. João por um cavaleiro apaixonado,

 quando ela se penteava num reguinho de água fria. A mossa lá está na fraga a atestar a passagem do cavalo. José Maria Pinto de Magalhães e o Dr. António Cabral  escreveram poemas sobre esta lenda, respectivamente nos livros Sons Dispersos (Coimbra, 1866) e Poemas Durienses (Vila Real, 1963). Eis duas estrofes de J.M.Pinto de Magalhães que descrevem a gentil moura:

 

Fraga onde  se encontra a mossa da ferradura do cavalo

 

Tinha os olhos negros, negros,  

Que mais não podiam ser,

 Uns cabelos também pretos,

Uns modos de enternecer:

A gente toda que a via

Por seu amor se perdia.

 

 ******

 

Cantava modas tão lindas

Que ninguém lhas aprendeu.

Diziam ser uma moura

Que seu palácio perdeu

E que, já quebrado o encanto,

Perdera o seu rico manto.

 

Lenda

Mina do Caidalto

 

O    Caidalto (a que o povo também chama Cagadalto) é um lugar íngreme e penhascoso, tendo sido escolhido, durante as guerras liberais do século passado, para refúgio dos que eram perseguidos pelos representantes na aldeia do partido vencedor. Consta que eram sobretudo as mulheres novas que ali procuravam abrigo, escondendo-se numa mina, com receio natural de atentados ao seu pudor. Os miguelistas perseguiam os liberais e vice-versa. Desses tempos ficou célebre um Castedense, que militava nas hostes liberais, e era conhecido pelo nome de Veiguinha. Um dos pontos preferidos para as arremetidas dos liberais contra os seus inimigos era o conjunto de ribanceiras que conduzem à foz do rio Tua. Conta-se que, por esse tempo, incluindo a campanha da Maria da Fonte (1846), os vencedores entravam nas adegas dos adversários e furavam-lhes pipas e tonéis, pondo o vinho a correr por ruas e caminhos. Embora de fé liberal na maioria, a aldeia tinha gente que fazia gala de torcer por D. Miguel. Um dia, um homem armado de espada passou por certa mulher e perguntou-lhe: quem viva? Ela, que não gostava de D. Pedro, respondeu pronta e jocosamente: viva D. Miguel, perro é que eu não digo. O chiste era ousado e o liberal, considerando-o ofensivo, avançou para a heroína e decepou-lhe a mão que estava hasteada como bandeira.

 

Lenda

FONTE DO MOURO

 

É um conjunto de prédios rurais na chamada ribeira do Castedo, em zona de forte inclinação. Junto de um pomar, há uma fonte nas imediações da qual estaria um tesouro escondido e consta que houve já pessoas que, por volta da meia noite, tentaram descobri-lo, escavando a terra, embora sem êxito. O sítio é ermo e propenso à fantasia, crendo muita gente que o verdadeiro livro de S. Cipriano fala nesse tesouro.